segunda-feira, 11 de maio de 2015

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À hora de almoço, discorríamos sobre os mesmos tópicos banais. Alguém disse que mascar uma pastilha elástica ajudava a eliminar uma daquelas músicas persistentes na nossa cabeça. Alguém disse que havia desconto nos cinemas até tal dia da semana.
"Acho que hoje não vou à praia, vou antes pelo jardim", disse o Gil.
"Então?" ripostei brincalhão. "Vê lá se é preciso chamar o Fernando. Estás com medo."
"Muito calor hoje. Muito calor", disse o Gil no seu jeito langoroso, quase escondido sobre a larga mesa.

Quando saímos, B. cortou caminho para ir também pelo jardim. Eu segui-a e ao Gil, deixando P. ir sozinho em direcção à praia. Só mais tarde me recordei que ele, face à minha resposta ao almoço, esperava que eu fosse com ele. Só mais tarde quando B. respondeu acidamente ao meu "também posso ir convosco" com um "mas olha que não tens que vir por aqui." 

Incidentalmente, precisava de falar com o Gil, mas B. crê que eu a sigo dapertutto, e crê também que os meus óculos de sol servem apenas para a olhar, andando atrás de si. Não é verdade - incidentalmente - nem eu olho para ela como os outros, como me esforço por nem olhar.

"Afinal estava calor," dissse eu apologeticamente ao P. ao regressar. "Olha que não estava," foi a resposta cortante. "Bom, eu também precisava de falar com o Gil". Ninguém parecia acreditar nisso.